O Livro do Esquecimento
Como Amnésias se tornou o volume dois da Candi Press — e por que uma família escreve.
O primeiro livro da coleção me chegou como cinquenta e uma fotografias do manuscrito de uma autora já falecida. O segundo chegou inteiro — um arquivo limpo do riso de um homem vivo sobre aquilo mesmo que todos nós perdemos.
Seu autor é Zé da Flauta — um nome de pluma; o homem por trás dele é José Vasconcelos de Oliveira. E eis o que eu não previa quando abri a editora: ele é filho de Marilda Vasconcelos de Oliveira, cujos contos sem verbos são o volume um da Candi Press. Uma mãe e um filho, cada um com o seu livro, chegando à mesma pequena editora na mesma estação. Uma coisa dessas não se planeja. Só se reconhece quando chega — e se procura ser digno dela.
O que é o livro
Amnésias — O Livro do Esquecimento — é um livro de crônicas sobre a memória e o esquecimento, escrito no tom do humor. É um tom mais difícil do que parece. Para rir das chaves que somem, dos nomes que fogem, dos anos que passam, é preciso já ter feito as pazes com a perda; o riso é essa paz. Mais de mil parágrafos curtos, cada um uma pequena resistência ao esquecimento — e aí estão, ao mesmo tempo, a graça e a ternura: um livro sobre esquecer, feito na única forma pensada para durar.
O corpo que lhe demos
Onde o livro de Marilda precisou ser resgatado, o de Zé precisou ser vestido. Chegou como um documento de Word e pediu apenas a roupa certa: o formato literário A5 da coleção, Palatino sobre creme, margens generosas, os parágrafos com espaço para respirar em vez de colados uns aos outros.
Uma lição discreta veio da capa. O formulário da Amazon confere o nome do livro com o nome da conta, e um nome de pluma sozinho não passa. Então a frente traz agora os dois — Zé da Flauta e, abaixo, com todas as letras, José Vasconcelos de Oliveira. A máscara e o rosto, guardados juntos. Seu cunhado, Gilson de Almeida, fez a revisão e é nomeado por isso na última página, como todo bom leitor merece.
Então o segundo volume saiu ao mundo ao lado do primeiro, e uma família que sempre fez as suas coisas em silêncio tornou-se, sem alarde, uma família impressa.
É para isso que serve uma pequena editora. Não apenas para resgatar um livro a partir de fotografias, mas para tomar o riso de um escritor vivo sobre o que perdemos e lhe dar o único corpo que não esquece.